segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Magnitude de Sirius

Quando olhamos para o céu, nós, meros espectadores, percebemos que as estrelas têm diferentes intensidades de brilho. Algumas brilham intensamente enquanto outras quase não são perceptíveis, a maioria delas estando invisíveis a olho nu e sendo possível observar somente com auxílio de instrumentos como telescópios e câmeras especiais.
A fim de classificar as intensidades de brilho, os astrônomos criaram uma escala de magnitude. A ideia vem desde os antigos astrônomos gregos Hiparco e Ptolomeu. Assim, foram descritas as estrelas de primeira magnitude, as mais fortes, as de segunda magnitude, logo em seguida, com brilho mais fraco, e assim por diante até a de sexta magnitude, cem vezes menos brilhantes que as primeiras.
Mas essa escala mostrou-se incompleta, pois muitos astros tem brilho mais intenso que as classificadas na primeira magnitude, tendo que se criar as magnitudes zero e as negativas. Sirius (constelação do Cão Maior), a estrela mais brilhante no céu noturno, tem magnitude menos 1, já o Sol, menos 27.
A intensidade do brilho perceptível pouco ou nada dizem sobre o tamanho dos astros. Dado que Sirius é mais de 20 vezes mais brilhante e 2,6 vezes mais massivo que o Sol.
Como bem disse Hilda Hilst, em número hiperbólico, em Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão.


Ode descontínua e remota para flauta e oboé. De Ariana para Dionísio.

Canto VI

Três luas, Dionísio, não te vejo.
Três luas percorro a Casa, a minha,
E entre o pátio e a figueira
Converso e passeio com meus cães

E fingindo altivez digo à minha estrela
Essa que é inteira prata, dez mil sóis
Sirius pressaga

Que Ariana pode estar sozinha
Sem Dionísio, sem riqueza ou fama
Porque há dentro dela um sol maior:

Amor que se alimenta de uma chama
Movediça e lunada, mais luzente e alta

Quando tu, Dionísio, não estás.



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sexta-feira, 26 de junho de 2015

Cruzeiro do Sul

Mais conhecida e celebrada constelação do céu brasileiro, o Cruzeiro do Sul é, por vezes, entendido como um sinal divino.
Formada por cinco estrelas, a constelação figura em muitas bandeiras e brasões mundo afora. Quatro delas são muito brilhantes, o que leva a algumas pessoas a crer que somente estas quatro constituem a constelação.
O brilho intenso e destacado no céu contrasta com a grande quantidade de manchas escuras que ladeiam a Cruz do Sul, como, por exemplo, a nebulosa escura conhecida por Saco de Carvão.
Cláudio Ptolomeu, astrônomo e matemático, já catalogara a constelação no século II, mas permaneceu ignorada até a época das grandes navegações, onde ganhou prestígio e importância entre os desbravadores do Novo Mundo. Nesta época viveu Fernão de Magalhães, o primeiro navegador a realizar a viagem de volta ao mundo numa embarcação. Uma das estrelas do Cruzeiro do Sul é uma homenagem ao navegador, a "Estrela de Magalhães". Sendo ela a Alfa Crux, estrela mais brilhante e de coloração alaranjada, a olho nu, e fica situada na base daconstelação, ou seja, o pé da cruz.
A estrela no topo da constelação, Gama Crux, é conhecida por "Rubídea" por ter coloração avermelhada.
Beta Crux é a mão esquerda da cruz. Segunda mais brilhante dentre elas e conhecida por "Mimosa". Já a mão direita é Delta Crux, conhecida por "Pálida" em virtude de seu brilho ser o mais fraco entre as quatro principais.
E, finalmente, Epsilon Crux é a famosa "Intrometida".
Há ainda uma sexta estrela, Zeta Crux, situada bem ao lado da Estrela de Magalhães. Ela é imperceptível a olho nu, mas com ajuda de uma luneta é possível observá-la. Não chega a ser uma estrela dupla, já que estão situadas a muita distância uma da outra. Apenas a posição aparente dá-nos esta impressão.
Sendo o Cruzeiro do Sul uma constelação tão marcante no sul celeste e visto, como já dito, um "sinal", o poeta Cssiano Ricardo tenta decifrar o sentido deste sinal com os versos:

Sinal do Céu


E uma cruz misteriosa de estrelas
abriu no céu os seus braços de luz
como uma enorme profecia:

Eu sou a cruz do cruzamento!
O cruzeiro do amor universal.

Eu tenho estes braços abertos
assim, na amplidão dos espaços
como que pra dizer: vinde todos!
que este céu é bastante profundo
e servirá de teto a todos quantos
sofrem no mundo;
que este chão é bastante fecundo
e dará de comer a todos quantos
têm fome, no mundo;

que estes rios darão de sobejo
pra mitigar a sede a todos quantos
têm sede, no mundo.

Sinal da cruz, descrucificador
porque signo de “mais”, de soma e aliança.

Eu sou a cruz do amor.
Um abraço de estrelas a quem chega
à procura de uma ilha
no mapa-múndi da desesperança.

Porque eu sou o caminho, ainda obscuro,
por onde, finalmente,
desfilará a humanidade do futuro.

[Cassiano Ricardo]


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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O Cometa

Sobre "O Cometa" Rodrigo Amarante comenta:
“Também é sobre a falta. Mas é a falta de um amigo querido, que é o poeta Ericson Pires, que morreu no ano passado. Foi um grande amigo que conheci logo que entrei na PUC-RJ. Já era veterano e nós nos tornamos grandes amigos. E ele foi meu grande amigo, mas também meu professor, e um cara que me ensinou muito. Grande cabeça, grande louco, culto, intelectual. Essa música foi um retrato dele à minha moda. Também é uma coisa que tem a ver com a saudade que eu sinto dele.
(...) ‘O Cometa’ é [Henry] Mancini puro: é meu amor pelo Peter Sellers e os filmes do Blake Edwards, na genialidade absurda que ele teve de escrever temas de comedia com uma delicadeza e uma inteligência absurda, não subestimando.” 
[Revista Rolling Stone. Rodrigo Amarante comenta as onze faixas do novo disco, Cavalo - http://rollingstone.uol.com.br/galeria/rodrigo-amarante-comenta-onze-faixas-do-novo-disco-icavaloi/#imagem8 ]


O Cometa
Rodrigo Amarante
Bruto bailarino
Delicado que é
Olhos de menino
Ginga de pajé

Pena de malandro
Rima de doutor
Sua faixa preta
De amarelo decorou

Mas o decoro, o coro
O status quo
Ele dizia
Cara, assim, o ó!
E sua força era
A sua voz
Ainda é, será assim
Entre nós

Foi meu professor
Foi meu cúmplice
Sua mente, eu sei
Só chego ao índice
Fera dos palácios
Peste dos jardins
Orquestrava lata
E traduzia do latim

Mas o decoro, o coro
O status quo
Ele dizia:
Cara, assim, o ó!
E sua força era
A sua voz
Ainda é, será assim
Entre nós

O cometa passou
Marcou meu corpo
Está escrito
O cometa passou
Riscou o tempo
E foi



sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Tétis apresenta a Máquina do Mundo a Vasco da Gama



"Vês aqui a grande Máquina do Mundo,
etérea e elemental, que fabricada
assim foi do Saber, alto e profundo,
que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
globo e sua superfície tão limada,
é Deus: mas o que é Deus ninguém o entende,
que a tanto o engenho humano não se estende"

"Este orbe que, primeiro, vai cercando
os outros mais pequenos que em si tem,
que está com luz tão clara radiando
que a vista cega e a mente vil também,
Empíreo se nomeia, onde logrando
puras almas estão daquele Bem
tamanho, que ele só se entende e alcança,
de quem não há no mundo semelhança."

"Aqui, só verdadeiros, gloriosos
divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
fingidos de mortal e cego engano.
Só para fazer versos deleitosos
servimos; e, se mais o trato humano
nos pode dar, é só que o nome nosso
nestas estrelas pôs o engenho vosso."

"Enfim que o Sumo Deus, que por segundas
causas obra no Mundo, tudo manda.
E tornando a contar-te das profundas
obras da Mão Divina veneranda,
debaixo deste círculo onde as mundas
almas divinas gozam, que não anda,
outro corre, tão leve e tão ligeiro
que não se enxerga: é o Móbil Primeiro."

"Com este rapto e grande movimento
vão todos os que dentro tem no seio;
por obra deste, o Sol, andando a tento,
o dia e noite faz, com curso alheio.
Debaixo deste leve, anda outro lento,
tão lento e sobjugado a duro freio,
que enquanto Febo, de luz nunca escasso,
duzentos cursos faz, dá ele um passo."

"Olha estoutro debaixo, que esmaltado
de corpos lisos anda e radiantes,
que também nele tem curso ordenado
e nos seus axes correm cintilantes.
Bem vês como se veste e faz ornado
co largo Cinto d' Ouro, que estelantes
animais doze traz afigurados,
aposentos de Febo limitados."

"Debaixo deste grande firmamento,
vês o céu de Saturno, deus antigo;
Júpiter logo faz o movimento,
e Marte abaixo, bélico inimigo;
o claro Olho do Céu, no quarto assento,
e Vénus, que os amores traz consigo;
Mercúrio, de eloquência soberana;
com três rostos, debaixo vai Diana."

"Em todos estes orbes, diferente
curso verás, nuns grave e noutros leve;
ora fogem do centro longamente,
ora da Terra estão caminho breve,
bem como quis o Padre omnipotente,
que o fogo fez e o ar, o vento e a neve,
os quais verás que jazem mais adentro
e tem co mar a Terra por seu centro."

"Neste centro, pousada dos humanos,
que não sòmente, ousados, se contentam
de sofrerem da terra firme os danos,
mas inda o mar instável exprimentam,
verás as várias partes, que os insanos
mares dividem, onde se aposentam
várias nações que mandam vários reis,
vários costumes seus e várias leis."

[Máquina do Mundo em Os Lusíadas, Canto X - Luís Vaz de Camões]